Acordou, abriu os olhos e foi tomar o habitual café. A caneca azul combinava com as pantufas, mordidas pelo cachorro. Subiu, trocou de roupa e saiu. Nada. O vazio lhe preenchia o peito e sufocava. Não aguentava mais, precisava pensar. Ainda que não comentasse nada, ela queria pensar, não suportaria ficar sem saber, de fato, sua própria opinião. Precisava voltar ao assunto. Deixou para depois, afinal havia prometido a si mesma esquecer. Mas será que estava fazendo a coisa certa? Será que esquecer era mesmo o melhor caminho?
Chegou ao banco, finalmente. Agora sim, esqueceria! Nem que fosse obrigada. Se ocuparia com outras coisas que não aquilo. Atravessou a porta do escritório e sorriu para o chefe. 'Puxar o saco é sempre bom' pensou. Viu só, ela sabia que seria capaz! Já estava até pensando num futuro promissor na empresa. Em pouco tempo se conformaria com o destino e não iria mais desejar entender o porquê de tantas coisas. 'Porquês' que ela sempre quis saber. Mas agora tudo isso era desnecessário. O importante era se concentrar no trabalho e seguir adiante.
'Próximo!' gritava ela para a moça grávida no início da fila. Sua expressão séria não enganava a cliente e nem a ninguém, estava claramente preocupada. O relógio parecia estar quebrado. Talvez fosse seu nervosismo apenas. Levantou-se e foi tomar um café. Tudo a incomodava, até mesmo o único dos fios de cabelo que insistia em ficar fora do lugar. Soltou seus longos cabelos negros e prendeu-os novamente.
Sentia-se mal. O relógio indicava quinze para o meio-dia. Havia pedido licença para o período da tarde. Trocara a folga com o colega de guichê. Só mais três horas e ela finalmente descobriria a verdade. Não sabia ainda se aceitaria com serenidade, caso fosse verdade, ou se enlouqueceria. De que adiantava pensar nisto agora, que já estava enlouquecendo. Refletiu brevemente sobre o assunto, mas decidiu deixar para depois. Pensar não lhe parecia boa idéia no momento.
Distraia-se com uma ponta dupla em seu cabelo. Tripla, na verdade. Pegou a tesoura e, literalmente, cortou o mal pela raiz. Finalmente levantou-se de sua cadeira, pegou a bolsa e dirigiu-se em direção à porta. Esbarrou num senhor de idade, com óculos e bengala. Devia ter lá os seus sessenta e poucos anos. Desculpou-se e saiu.
Não era fome o que sentia, mas sim um desejo incontrolável de ocupar-se com alguma coisa. Comer lhe parecia ótima idéia para suprir esta necessidade. Ver as pessoas não era algo necessário, principalmente quando todas pareciam mais felizes e animadas do que ela. Comprou um marmitex e foi para casa. Subiu de escada, não queria encontrar ninguém conhecido. Neste momento detestava os vizinhos, e mais ainda aqueles que se ocupam da vida alheia.
Abriu a porta e entrou. Jogou as chaves em cima da mesinha da sala, esquentou o marmitex no microondas e foi para o quarto. Comia como se não o fizesse há anos. Na televisão ligada meramente por hábito, o jornal. Ainda que não estivesse naquele estado, seria humanamente impossível para um mente pensante prestar atenção naquilo sem se irritar com o mundo.
Terminou a refeição e devorou aquela barra de chocolate que deveria durar a semana toda. Deitou-se na cama e puxou o edredon sob seus pés. Sentia-se, finalmente, protegida. Ali, nada seria capaz de afligir-lhe. Dormiu tranquila. Acordou com uma sensação de vazio, sem nem ao menos lembrar-se de seus sonhos. O silêncio dominava o quarto. As frestas da janela deixavam escapar uma luminosidade quase nula. Levantou-se e abriu as cortinas para ver o que acontecia. Olhou para baixo e viu milhares de guarda-chuvas escondendo as pessoas das incansáveis gotas que caiam do céu. Nunca entendeu por que se esconder de algo que não machuca. De qualquer forma, nunca entendeu muitas coisas, e esta não era diferente.
Alcançou o celular no criado-mudo e viu as horas. Três e vinte e sete. Lembrou-se subitamente daquilo que tentara, e por um breve espaço de tempo conseguira, esquecer. Saiu de casa com pressa. Estava despenteada, amassada e sem meias, mas não ligava. Correu pelas escadas e nem olhou para o zelador, que a cumprimentou na portaria. Entrou no carro úmida. Seu corpo molhava o banco de couro, mas ela não se incomodou.
Cerca de dez minutos depois chegou ao laboratório para pegar os resulatdos do exame. Entrou na sala de espera e retirou o envelope no balcão. Não se conteve, abriu ali mesmo. Resultado: negativo. Foi tomada por um misto de alívio e decepção. Já havia se acostumado com a idéia, para o caso de ser verdade. 'Ainda bem que eu estava errada.' , pensou. Tranquilizada com o papel que carregava em suas mãos, pegou o carro no estacionamento e dirigiu para casa, sem nem se incomodar com o trânsito, a chuva, ou qualquer outro empecilho na vida. Sentia-se bem.
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